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Varanasi, a incrível cidade sagrada da Índia

Diários de viagem: entre a decepção e a contemplação



Caroline Maya Gramaglio, em Varanasi (Agosto de 2019)


Escrevi um artigo nesse mesmo blog sobre a mítica Varanasi algum tempo atrás. Porém, quando o fiz, meus pés não haviam tocado nesse solo tão sagrado. Erroneamente pensei que, pesquisas e conversas com pessoas que por lá haviam passado, seriam suficientes. Em agosto, fez 2 anos da minha visita a essa cidade que é a reencarnação da essência da alma humana. Por isso, me pareceu apropriado parar, refletir e relembrar aqueles intensos dias nessa cidade que é um capítulo à parte na imensa e complexa Índia.


Após uma viagem por algumas das cidades mais belas e turísticas da Índia, como Jodhpur e Udaipur e uma rápida conexão em Deli, pousei em Varanasi em uma quarta-feira bem tarde da noite. Estava muito quente e úmido, no final das monções, algo normal e esperado pelos indianos, mas que é sempre um tanto chocante para quem vem de fora.


O representante da SITA me recebeu na saída do aeroporto de Varanasi e me deu uma notícia um tanto decepcionante: não poderíamos fazer o passeio de barco pelo rio Ganges que havia transbordado e invadido os ghats (escadarias que margeiam o rio). Sim, nós do turismo, costumamos viajar na baixa temporada e no final das monções, (maio a setembro), o índice pluvial eleva-se e inundações são recorrentes. As intensas chuvas vêm para amenizar o intenso calor e fomentar a agricultura familiar, base da subsistência de milhões de indianos espalhados por muitos vilarejos localizados no interior do país.


Lamentei de modo egoísta, claro, essa dádiva da natureza e no caminho para o hotel passando pelas pontes que cortam o Ganges, avancei da parte nova rumo ao lado mais antigo, sem muito que ver e quase nada para entender. Tudo parecia calmo, muito diferente dos relatos, até chegar a poucos metros da cidade antiga. O vai e vem de pequenas multidões, vacas, crianças, motos, macacos, tuk-tuks e carros parecia uma massa que, de alguma forma, encontrava toda sua lógica entre sabores, freios bruscos, buzinas e luzes.


Saí do carro e subi na garupa de uma moto e minhas malas foram levadas pelos carregadores do hotel, BrijRama Palace, no braço, ladeiras acima. Eu segui na moto em um zigue-zague eterno e experimentava o que estava por vir, uma mistura de cheiros, imagens e ruídos que na manhã seguinte me esperavam. O barulho intenso e confusão típica ficavam para trás, conforme a moto subia e adentrava as vielas da cidade.

Varanasi e seu rio sagrado


Na manhã seguinte, com a impossibilidade de fazer o passeio de barco ao nascer do sol, parti com o guia antes mesmo das vacas sagradas saírem para pulverizar as ruas com seus excrementos matinais. Os comércios – portinholas estreitas vendendo um pouco de tudo, condimentos, comidas de rua e pequenos objetos, começavam a abrir já no alvorecer. Os vendedores sentados no chão, guardiões de seu sustento, tinham como decoração imagens desgastadas de seus Deuses preferidos, fotos de família, pedaços de revistas e cordões religiosos. Ali, em seus púlpitos comerciais humildes, oscilando entre o capitalismo e o hinduísmo, os vendedores liam jornais, coçavam suas barbas, falavam com o comerciante do lado, seguindo suas vidas nas miudezas do seu eterno e desbotado cotidiano carcomido pela força de décadas.


Ao caminhar, vi também os templos dedicados ao Shiva, o Deus da destruição, um dos mais poderosos do hinduísmo. Esses templos são pequenos altares de pedra, com velas, pequenas porções de arroz e pó vermelhos de alguém que passou ali um pouco antes pedindo ou agradecendo alguma dádiva alcançada.


O quase silêncio de uma manhã modorrenta era aos poucos quebrado pelo som monótono de mantras entoados por sacerdotes aprendizes que os decoravam em conjunto. Ouvia-se um som uníssono que saia de janelas de escolas para formação dos brâmanes. Esse tipo academia para sacerdotes é bastante comum e está espalhado por essa cidade tão sagrada, com mais de 4 mil anos de história.


Placa em frente a um ghat explicando a história da passagem de Buda


O final da minha caminhada deu-se em um ghat, o único não inundado, o maior e mais alto da cidade. Segundo a lenda, o Buda passou por ali antes de chegar a Sarnath, local que deu o seu primeiro discurso após atingir a iluminação. Lá, todos os peregrinos se concentravam, em uma pequena multidão. De repente, a sensação foi de que, naqueles poucos metros cúbicos cabia toda a humanidade, com seus medos, crenças, desejos e gargalhadas, em corpos vestidos, mas quase despidos, tingidos pelas águas turvas do rio.


Vi peregrinos de todas as classes sociais atirando-se nas águas turvas em busca de bênçãos ou uma encarnação mais bem afortunada. A fé os unia. Havia ambulantes vendendo cumbucas plásticas para levar a água sagrada para os entes queridos que não puderam vir. O comércio e a religião vivos e unidos também no oriente.


Um sacerdote fazendo os rituais para o casal


Casais sentavam-se diante de sacerdotes que recitavam mantras de modo sonolento e quase hipnótico. As mãos destes estão cobertas com algumas das cinzas dos mortos e da água sagrada do rio, e estão pousadas, ora na testa dos noivos, ora em objetos sagrados, abençoando novas e velhas relações.


Precisei observar por minutos, quase 1 hora esse lugar e essas pessoas, para compreender um ordenamento para eles natural com toques ritualísticos. Maravilhada me vi petrificada diante daquele quadro vivo, de corpos felizes e almas purificadas em um ordenamento tocante. Em pé, diante daquele ghat abarrotado, entendi que a Índia tem muito a nos ensinar. Ali, os julgamentos ocidentalizados não cabem, não podem entrar naquela água e tampouco tem o poder de contaminar rara beleza, afinal a alma indiana está em outro lugar.


Depois de quase 3 horas caminhando por Varanasi e indo até esse ghat quase mágico, era hora de voltar par ao hotel...




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